APLAUSOS 

A palestra, a peça musical ou outra apresentação artística qualquer, realizada dentro do centro espírita, chega ao seu final e, ato contínuo, a assembleia prorrompe em palmas.

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Cena como essa é habitual e assistida com naturalidade, em alguns grupos, ou, ao contrário, eventual e compreendida como inadequada, em outros. As opiniões divergem com respeito aos aplausos a realizações doutrinárias. A questão parece ociosa, à primeira vista, no entanto, a análise mais atenta revela que a discussão do tema talvez seja relevante, no que concerne à espiritualização da casa espírita. Por essa razão, será abordada.

As referências diretas sobre o assunto são escassas, na literatura espírita.  O Espírito André Luiz, no livro Conduta Espírita, psicografado por Waldo Vieira, no capítulo 11, que trata do Templo Espírita(1), sugere-nos: “Evitar aplausos e manifestações outras, as quais, apesar de interpretarem atitudes sinceras, por vezes geram desentendimentos e desequilíbrios vários. O silêncio favorece a ordem.” Não fica perfeitamente claro, se o benfeitor espiritual se refere exatamente aos aplausos, ao final da palestra ou outras atividades, em sinal de aprovação. É possível que esteja a se reportar ao comportamento de interromper a palestra através de aplausos ou outras manifestações, como vaias, para manifestar o sentimento de concordância ou discordância veemente em relação ao que se está proferindo, tal qual ocorre, frequentemente, nos discursos políticos. Tal atitude, de fato, é absolutamente imprópria, durante uma atividade espírita. Além de interromper o curso do pensamento do palestrante e tumultuar o ambiente, pode ser compreendido como um recado indireto para outros circunstantes, gerando animosidade e desarmonia. 

 

Resultado de imagem para dr. bezerra de menezesOutra mensagem mais explícita, de autoria de Bezerra de Menezes,  foi recebida pelo médium Francisco Candido Xavier, em reunião íntima, na cidade de Caratinga (MG) e se encontra publicada na revista O Reformador, de janeiro de 1992. Em um dos seus trechos, o benfeitor espiritual assim se refere: Dessa forma, o Centro Espírita deve-se transformar num verdadeiro santuário, de respeito e oração. Não se pode, pois, permitir em seu seio festas, músicas de fundo não edificante, peças teatrais, aplausos, conversação tumultuada e não construtiva, discussões violentas, homenagens humanas, “comes e bebes”’, reuniões sem disciplina, rifas, leilões, enfim tudo aquilo que não se concebe num hospital, junto a um leito de dor ou num santuário de oração.

Se os comentários especificamente sobre o tema são raros, informações indiretas existem em maior quantidade. André Luiz, no livro Nosso Lar, faz o relato da preleção de Veneranda(2) e das palavras do governador da cidade espiritual aos cidadãos, precedidas pela execução de um hino por muitas vozes infantis, acompanhadas pelo som das harpas(3); em Os Mensageiros, conta sobre a palestra de Telésforo(4) e a interpretação de uma música por Ismália(5); em Missionários da Luz, nos coloca a par da palestra de Alexandre(6); em Obreiros da Vida Eterna, refere-se à palestra de Albano Metelo(7). Em muitos outros livros, o mesmo autor reporta-se a diversas outras palestras e apresentações musicais para fim de elevação do Espírito. Em nenhuma delas se refere a aplausos. Relata, no entanto, a resposta do Céu, na forma de perfumes, flocos de material fluídico. Todas essas atividades tinham por propósito oferecer uma experiência religiosa, objetivava a espiritualização. Tanto é assim que esse objetivo era alcançado e a resposta do alto se fazia. Por outro lado, em Os Mensageiros, durante atividade social, promovida na residência de Alfredo e Ismália, apresentam-se cerca de 80 crianças, parte manejando instrumentos musicais e parte cantando, que são,  ao final, calorosamente aplaudidas(8). Interpretamos que aplausos são pertinentes em momentos de descontração, na vida social; não em momentos em que se objetiva primordialmente a espiritualização.

Imagem relacionadaManoel Philomeno de Miranda, em sua obra “Entre os dois mundos”, pela psicografia de Divaldo Franco, iniciando no capítulo 2, conta-nos a palestra de Policarpo, em um centro de cultura de certa colônia espiritual. Ao se referir ao comportamento da assembleia, assim se expressa: “nenhuma bulha nem tumulto habituais […]. Todos estávamos conscientes da responsabilidade imensa do momento e de quanto nos seria valioso aproveitar cada instante para insculpir definitivamente no coração e na mente a mensagem de Vida eterna que logo mais seria ministrada.”

Aplausos cabem a uma exibição de talento. A conferência doutrinária não tem por finalidade evidenciar talentos de oratória ou de qualquer outra natureza do palestrante. Tem por propósito proporcionar àqueles que escutam uma experiência religiosa … espiritualizante. Assim como não passa pela mente de alguém aplaudir uma prece, também não parece fazer sentido ovacionar a palestra doutrinária, cujo objetivo é o mesmo. Ao final de uma exposição doutrinária feliz, deve-se esperar pela resposta dos céus, na forma de pétalas, cintilações, sons e odores fluídicos que, para serem absorvidos, requerem o estado de espírito sereno. Como compatibilizar isso com a explosão emocional na forma de palmas estrepitosas? O silêncio, a meditação, a oração são os elementos facilitadores da assimilação dos recursos dispensados pela espiritualidade maior. Ainda que algumas pessoas possam afirmar que os aplausos não as incomodam e não as impedem de receber os benefícios, o que pode ser questionado, outros se sentem prejudicados. Gostariam do benefício do silêncio.

Relativamente às apresentações artísticas, parece que o mesmo raciocínio é válido. Qual a razão de executarem números musicais numa atividade doutrinária, como por exemplo, antes ou após uma palestra espírita, senão a elevação do estado de espírito, tornando-o mais receptivo aos benefícios espirituais? Qual a razão de ser senão favorecer a experiência religiosa, a experiência espiritualizante? Pode-se repetir o que foi dito em relação às palestras. Se não se cogita de aplaudir uma prece (uma atividade evidentemente espiritualizante), porque aplaudir-se a música ou outra manifestação artística executada com o mesmo propósito?

Situação diferente é quando se propõe realizar uma exibição de arte. Nesse caso, a ideia de uma experiência religiosa está em segundo plano. Os aplausos, nesse caso, servem de estímulo ao progresso na arte apresentada. Nada mais justo. Cabe considerar, no entanto, que exibições de talentos se aplicam a encontros para essa finalidade e não às atividades doutrinárias. Conciliar exibição de talentos com a experiência religiosa no sentido maior do termo, que é o que se busca na atividade doutrinária espírita, não é tarefa fácil; na verdade, parecem incompatíveis. O palestrante prepara com carinho sua exposição. Planeja chegar às culminâncias espirituais, no clímax da palestra e sua conclusão. Imagina os benefícios descendo do alto sobre todos os circunstantes, tratando enfermidades ainda imanifestas aos médicos da Terra, reduzindo angústias desestabilizadoras, serenando corações aflitos. Com esforço obtém a inspiração necessária e funciona como intermediário das potências celestes. Fluidos luminosos e perfumados descem sobre a assembleia, que começa a se beneficiar. No entanto, esses benefícios precisam de tempo para serem plenamente absorvidos. Assim que termina a explanação, as mentes voltam à excitação e às ansiedades habituais e o benefício se perde.

Palmas produzem som, que é a vibração do ar e vão impressionar os tímpanos. Expressam, muitas vezes, muito mais a excitação emocional do que os sentimentos elevados. Se o desejo for o de envolver em vibrações espirituais de gratidão aquele que funcionou como instrumento da mensagem divina, pela exposição doutrinária ou pela execução artística, a oração, a irradiação do pensamento são os instrumentos apropriados.

O Espiritismo existe para reformular conceitos, diminuindo progressivamente as expressões materiais e ampliando gradativamente as expressões espirituais, na vida dos que o professam. Comportarem-se os espíritas, conhecedores da realidade espiritual, de forma original em relação ao restante da humanidade que as ignora é consequência natural do conhecimento que detêm. Repetir inconscientemente os comportamentos dos ignorantes da realidade espiritual será menosprezar a dádiva do conhecimento recebido.

Ao término da palestra ou da apresentação artística com propósito espiritualizante, que se movimentem os fluidos de gratidão, através da irradiação do pensamento e da oração. Imperioso lembrar que não se pode coadunar o estrépito de palmas e a excitação emocional com os trabalhos dos benfeitores espirituais junto a enfermos encarnados e desencarnados, presentes à reunião doutrinaria. Que se deixem os aplausos para as ocasiões propícias, em locais apropriados.

Nossa Casa Espírita tem por princípio o aproveitamento do tempo em experiências espiritualizantes. De outra forma, desperdiçamos o escasso tempo que nos resta para dedicarmo-nos aos interesses do Espírito eterno e à nossa elevação espiritual, frente a tantas atividades imposta pela vida terrena, com as mesmas experiências oferecidas abundantemente pelo mundo. Recomendável cuidarmos para não nos distrairmos da necessidade de espiritualização das percepções, emoções, pensamentos, palavras e ações.

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